Futebol e erro fundamental de atribuição

Se você ler, ouvir ou assistir as análises de comentaristas esportivos, vai ver que eles, via de regra, cometem o chamado erro fundamental de atribuição ao analisar o fracasso brasileiro na Copa do Mundo. Colocam a culpa no técnico, ou no jogador x ou y, ou buscam fatos da preparação para “explicar” o fracasso em campo (incorrendo em vieses como o hindsight bias ou o post hoc ego propter hoc) . Futebol é jogo de probabilidades e a acaso. A probabilidade de vitórias depende de fatores estruturais, mediatos , cujos resultados que levam tempo. Não apenas o Brasil regrediu em vários desses fatores, como não vem adotando outros, relacionados ao planejamento, ao conhecimento científico, à gestão. Meu palpite é que, passada a comoção da Copa, vamos continuar patinando nesses fatores. É o típico fenômeno complexo, com várias causas simultâneas e que interagem entre si, em um processo com consequências que o retroalimentam. É o tipo de fenômeno com o qual não sabemos lidar, pois seu entendimento demanda escapar de visões simplistas que tradicionalmente dominam a área. Em escala micro, é mais ou menos como o desenvolvimento de uma sociedade. Não sei se um dia teremos as competências para lidar com esse fenômeno.

Copa do Mundo e narrativas

Escrevo este post logo após a vitória do Brasil sobre a Colômbia.

Independentemente do resultado daqui para a frente, está garantido o tom positivo da narrativa da participação brasileira no evento.

Se o Brasil for eliminado, a culpa será do jogador colombiano que tirou o melhor jogador brasileiro do torneio. A menos que a derrota seja humilhante, será possível dizer que o time caiu de pé e que, se não fosse o bode expiatório, o time teria sido campeão.

Se, por outro lado, o time for campeão, a narrativa terá ainda um tom épico e será ainda mais forte.

O efeito dessa narrativa positiva será provavelmente um fortalecimento da identidade do brasileiro, com consequente espraiamento desse sentimento em termos de atitudes e estado de humor positivos.

Nada mal para quem começou o evento sob a sombra da incompetência fora de campo.