O que sua revista semanal não te conta sobre educação

Na era do discurso hegemônico sobre a solução para os problemas da educação baseada em bônus por resultados em testes  (algo com consequências frequentemente negativas – leia mais aqui), alguns pesquisadores associados com a Universidade de Harvard (na área de educação), publicaram um livro muito bom (Making Thinking Visible), mostrando que a educação é muito mais do que “transmitir conhecimento”. O livro se soma a alguns outros na mesma linha, como o de David Perkins, também de Harvard. Como os autores mesmo lembram, as escolas foram criadas sob um modelo industrial, com foco na mera transmissão de conhecimento. Hoje, nesse ambiente voltado à preparação para testes, o foco se resume basicamente a cobrir o currículo e preparar os alunos para ir bem nas provas. Mas será que educação é só ir bem em uma prova? Como eles reconhecem, o ambiente atual é hostil ao ensino com foco no entendimento e no desenvolvimento de habilidades cognitivas (thinking dispositions) como o raciocínio crítico. Evidentemente, ensinar com foco no entendimento pressupõe que o aluno aprenda o que precisa ser aprendido, mas a ideia é que esse aprendizado seja profundo e duradouro. É algo mais complexo do que essas fórmulas simplistas apregoadas por aí, que soam como música aos nossos ouvidos subdesenvolvidos.

Confiança x competência

Há evidências científicas que mostram um desencontro nítido e até engraçado entre duas curvas relativas à mesma pessoa: confiança no conhecimento que acredita ter e nível real de conhecimento. Enquanto a segunda curva vai crescendo com o acúmulo de conhecimento, a confiança atinge seu pico no início do processo e vai diminuindo (isso para a média das pessoas) – o expert, tipicamente, acha que sabe menos do que sabe de fato. Outro dia, no ano passado, estava assistindo uma entrevista do Daniel Kahneman, pai da economia comportamental e prêmio Nobel. Mais de uma vez, quando perguntado sobre determinado assunto, ele respondeu: não sei.
Mas há um problema nessa história. As evidências também mostram claramente que as pessoas confundem confiança e competência. Quanto maior a confiança apresentada, excetuando-se às vezes aqueles casos em que claramente se vê o gap (tipicamente no início das curvas), maior a competência percebida. Isso tem consequências sociais graves. Vide, por exemplo, os médicos. Que médico lhe tranquilizaria mais em uma situação ambígua? Aquele que dá um diagnóstico de pronto, sem pestanejar, ou aquele que confessa sua dúvida e diz que precisa pesquisar?
Em outras palavras, existe um prêmio social para quem mostra confiança. Com isso, nossos modelos de comportamento, nas diversas áreas, tendem a ser pessoas com muita confiança. A falta de confiança, por sua vez, é vista como fraqueza. Imagine a consequência disso para as organizações: um festival de falsas certezas e pouca disposição para questioná-las.

Aprendizagem por desafios

Uma das tendências modernas na educação é o aprendizado orientado a projetos, que comprovadamente leva a melhores resultados do que a abordagem tradicional, pois favorece um papel muito mais ativo dos alunos. Esse é um desafio compartilhado também por organizações, que estão sempre às voltas com programas de formação de executivos e de desenvolvimento profissional. Há pouco tempo saiu no Estadão uma reportagem muito interessante, destacando justamente o interesse das empresas por uma metodologia similar, que procura disponibilizar desafios reais para capturar a inteligência coletiva (e resolver problemas reais das organizações!).

Segue o link: http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,na-pratica-a-teoria-e-mais-interessante,953074,0.htm