Artigo de julho de 2013 na revista Veja defendia uma abordagem racional, baseada nas evidências científicas, para os problemas da educação brasileira e oferecia algumas receitas – com a maioria das quais eu concordo. Porém, temo que o autor tenha incorrido no que Madsen Pirie chama, em seu divertido livro*, de falácia da exceção que confirma a regra. Para o autor do artigo, o fato de alguns poucos países (um caso notório, imagino, é a Finlândia) terem alcançado o enorme sucesso em seu sistema educacional com base na atração dos mais talentosos para a docência seria a exceção que confirma a regra (a regra, no caso, seria a atração de candidatos medianos). Será que essa é a exceção que “confirma” a regra ou será que estamos diante de uma abordagem alternativa para o mesmo problema, ainda que seja uma abordagem adotada por poucos países? Como diz Pirie, a falácia da exceção que confirma a regra é frequente em análises binárias de realidades que são complexas. O autor do artigo é bem intencionado, mas não estou convencido de sua argumentação nesse ponto. Que fique claro também: não tenho dúvidas de que o problema educacional brasileiro é, em sua essência, um problema de gestão e de escolhas políticas equivocadas (como a incrível inversão de prioridades com a “gratuidade” no ensino superior – uma das raízes do holocausto social brasileiro).

Salários e motivação intrínseca. Um país em que os salários mais altos no poder público são pagos, via de regra, a profissionais da área jurídica, enquanto os salários de professores do ensino básico público são, em cidades como São Paulo, frequentemente inferiores a de profissionais liberais com pouca formação, parece muito longe de construir as bases para um desenvolvimento sólido e sustentável. Talvez a relação entre remuneração e atração dos melhores profissionais não seja linear: talvez haja um patamar mínimo de remuneração que precise ser alcançado para que um número expressivo de professores de potencial sucesso seja atraído para a carreira. A motivação para o comportamento vem em graus, como ensina a Teoria da Autodeterminação e as evidências cavalares que a suportam. Com salários mais baixos mesmo em relação a outras profissões de valorização social mediana (falo especialmente do cenário econômico de São Paulo), só aqueles com grau elevado de motivação intrínseca tenderiam a ser atraídos para a profissão – aqueles que enxergam a profissão como um “chamado”. Nessa situação, outro perfil de profissionais também tende a ser atraído: aquele que vê a profissão apenas como “apenas” um trabalho.

Independente da orientação motivacional que os atrai, é preciso ainda levar em conta que a motivação no trabalho é uma combinação da influência de diversos fatores, que mudam com o passar do tempo. Em outras palavras, profissionais que entram motivados (em diferentes graus) podem perder sua motivação para fazer um bom trabalho se diversos fatores dinâmicos não forem bem gerenciados ao longo do tempo. Dentre esses fatores, incluem-se as possibilidades de controle sobre o trabalho (autonomia – que não significa independência), a administração de justiça no ambiente (refiro-me aqui aos conceitos de organizational justice) e a possibilidade de desenvolvimento profissional e aprendizado. De longe, desconfio que o sistema educacional público brasileiro, além das gritantes falhas de gestão, é também uma máquina de desmotivar professores em série. Além da provável ausência de gestão adequada de pessoas, lemos nos jornais que não se pode expulsar alunos reiteradamente mal comportados e agressivos (corrijam-me se estiver enganado), existem ameaças morais e físicas por parte de alguns alunos (quando não agressões), não existe segurança adequada dentro e fora da escola etc. Eu ficaria surpreso com a notícia de que existe um percentual razoável de professores que permanecem realmente motivados a despeito de todos esses fatores. Não acredito.

O exemplo finlandês, descrito no livro do Sahlberg**, oferece lições que independem do abismo que nos separa economica, cultural e socialmente daquele país. Trata-se de um sistema que tem um funil apertado para selecionar os pretendentes à carreira no magistério (e que tem um programa invejável de formação profissional). Mais ou menos como acontece nas carreiras públicas mais disputadas no Brasil. Um sistema como esse pode ser sim uma boa alternativa para os problemas da educação brasileira (ainda que apenas mais um ingrediente na solução desses problemas e esteja longe de ser suficiente) e não a exceção que confirma a regra.

Deixando de lado o artigo da Veja e falando de maneira geral, preocupa-me um pouco quando leio receitas para corrigir os problemas da educação que colocam muito peso no comportamento individual do professor. Comete-se um erro que em psicologia social é conhecido como erro fundamental de atribuição, que significa ignorar todas as influências sistêmicas sobre o comportamento do indivíduo – frequentemente as de maior peso causal.

*How to Win Every Argument: The Use and Abuse of Logic (Bloomsbury Academic, 2007)

**Finnish Lessons: What Can the World Learn from Educational Change in Finland? (Teachers Collge Press, 2011)