O homo sapiens surgiu em um algum momento entre 50 mil a 100 mil atrás. A agricultura surgiu há 10 mil anos. O ser humano sempre se matou com muito gosto. Para quem estiver com vontade se sentir triste, recomendo o livro do historiador David Stannard, “American Holocaust”, sobre o extermínio de mais de 100 milhões de índios desde que Colombo pôs seus pezinhos neste continente (os relatos – verídicos – de bebês estraçalhados por cachorros ou mortos no colo de suas mães são imagens que vão me acompanhar pro resto da vida). Existe um botãozinho no ser humano que é muito fácil de ativar, o “in-group” versus “out-groups”. As evidências científicas mostram que basta separar pessoas por qualquer motivo aleatório, uma jogada de dados, e formam-se automaticamente grupos com identidade própria, que tendem a repelir os demais grupos, os outros, os diferentes. Durante muitos séculos o diferente eram aqueles de outra origem, de outras tribos, com outras crenças ou os considerados sem alma, caso dos indígenas, cuja morte era justificada como uma vontade de Deus. Deuses diversos foram invocados ao longo da História para justificar aniquilamentos e conquistas. Durante séculos recentes, dezenas de milhares de mulheres foram executadas legalmente sob a alegação de serem bruxas. Por sua vez, pela quase totalidade da história humana, sempre se considerou normal escravizar outras pessoas. De fato, a captura de escravos e o estupro de mulheres sempre foram espólios de guerra extremamente valorizados.

Um outro livro muito instrutivo sobre a demonstrada capacidade humana de aniquiliar os diferentes é a do pesquisador Steven Pinker (“The Better Angels of Our Nature”) que, inclusive, derruba o mito de que o século XX foi o mais sanguinário da História. 

Mas Pinker aponta que a partir da segunda metade do século passado iniciou-se um período inédito de pequenas taxas de violência intra e entre grupos, com diversas causas e em diversos níveis. Pinker tem uma argumentação muito rica, fortemente baseada em dados (e não em conjecturas) e uma clara compreensão da complexidade do fenômeno.

As causas apontadas por Pinker são diversas e multifacetadas e não é o objetivo deste artigo revê-las. O objetivo é chamar a atenção para essa inflexão na história humana recente.

Ainda um pouco antes da metade do século XX, o filósofo Karl Popper revolucionaria as fundações da ciência, ao defender o caráter provisório de todo o conhecimento científico e o foco na falsificabilidade das teorias como critério de busca da verdade e avanço do conhecimento. Hoje a contribuição pode até parecer banal, mas não custa lembrar que um dos grandes heróis da ciência e da medicina, o médico húngaro Ignaz Semmelweis, foi expulso do hospital de Viena há pouco mais de um século e ridicularizado ao propor que os médicos que faziam partos (que eram os mesmos que faziam necrópsias) lavassem as mãos em uma solução clorada. evitando-se as altíssimas taxas de mortes desnecessárias causadas por infecções transmitidas a partir da manipulação de cadáveres. A consideração de uma simples hipótese falsificável – algo que Semmelweis pôs em prática – teria evitado não apenas as mortes, mas também o ostracismo desse herói. E como se morria até o século XIX,…pois se imaginava que as doenças eram transmitidas por eflúvios invisíveis, pelo que se chamava de miasma. Em outras palavras, a ausência de conhecimento científico significava uma vida guiada por superstições e ameaçada frequentemente por causas perfeitamente evitáveis.

Que grande contribuição daria Popper! Quem lê hoje alguns estudos considerados clássicos na Administração, como a teoria dos dois fatores (higiênicos e motivacionais) de Herzberg ou o famoso “experimento” de Hawthorne percebe facilmente sua incrível fraqueza metodológica (praticamente uma piada no segundo caso), eis que inspirados pelo paradigma anterior.

Similarmente, embora sua narrativa seja cativante, a “teoria” de Freud não encontraria comprovação científica no século XX, quando submetida aos mesmos critérios que Popper e outros filósofos da ciência viriam a estabelecer.

Mudando um pouco o foco. Como mostra Barbara Kellerman em “The End of Leadership”, até meados do século passado as relações de poder, nos seus diversos níveis, sempre foram extremamente autoritárias. O poder dos maridos nas casas era praticamente absoluto. Mulheres viviam para cuidar das obrigações domésticas, dos filhos e para não causar problemas aos cônjuges. Retroceda-se um século e existia previsão legal para que uma mulher perdesse o direito à moradia e sobre os filhos caso resolvesse abandonar um casamento infeliz. No Brasil, como muitos sabem, um casamento infeliz era uma prisão até o final da década de 70 e o estigma sobre mulheres separadas, fortíssimo. Ainda até meados do século XX, o poder dos políticos era inquestionável e indevassável e o poder dos chefes, quase absoluto. Assédio moral ou assédio sexual são termos jovens.

Qual é o ponto disso tudo?

O ser humano passou dezenas de milhares de anos vivendo sob sistemas de crenças mágicas e superstições. Como argumenta Jared Diamond (“Guns, Germs, and Steel”), ao longo da história as religiões foram prontamente utilizadas para justificar sistemas sociais com forte concentração de poder e opressão e sem qualquer mobilidade social. Como citado acima, religiões também foram usadas como pretexto para aniquilar homens, mulheres e crianças. O ser humano sempre matou seus semelhantes/diferentes com muito gosto. Ele, na maior parte do tempo, nunca aceitou bem a divergência de ideias e opiniões. Tudo isso requer uma capacidade de autocontrole, de convivência democrática e de racionalidade que só se tornou possível, basicamente, a partir da metade do século passado, com a consolidação do conhecimento científico, o nascimento e amadurecimento de instituições e outras formas de regulação social ancoradas em princípios de racionalidade. Estamos falando de algo como 0,1% do tempo em que existimos. Em outras palavras, nossos genes e nossos sistemas de crenças conspiram contra esse avanço. Ainda hoje, em países não civilizados homossexuais são assassinados, albinos são esquartejados, mulheres são vítimas de crimes de honra e de mutilação genital e povos vizinhos se trucidam motivados por origens étnicas ou religiões diferentes.

De fato, a partir da metade do século passado muita coisa mudou e nós somos fruto de muitas dessas mudanças.

Mas os reflexos condicionados, os botõezinhos do “in-group/out-group”, e o software mental representado pela cultura brasileira (fortemente autoritária) estão todos aí. Não quer dizer que não possam ser superados, ainda que tenhamos um longo caminho pela frente.