Muita gente se pergunta por que as panelas, que tanto apanharam por Dilma, hoje estão quietas. Apoiadores da ex-presidente, manifestando uma inescapável tendência humana, cobram coerência daqueles que protestaram contra o PT, mas se calam em face de uma continuidade de escândalos de corrupção e, pior, diante da percepção de falta de punição dos atores políticos envolvidos. O enigma parece ainda maior ao se constatar que as taxas de aprovação (ou rejeição) do atual presidente não devem nada às de sua predecessora. Este artigo oferece uma proposição para explicar o fenômeno.

Insatisfação em relação a governos é um fenômeno extremamente comum no Brasil e no mundo. Campanhas criam esperança e vendem ilusões. Uma vez eleito, o político do mundo real se depara com restrições, pressões setoriais e sistemas políticos disfuncionais, além da forte limitação representada pela capacidade de gestão de sua equipe, que no Brasil costuma ser baixa. Isso leva a um progressivo relaxamento das promessas e, no limite, à complacência, o que leva à insatisfação e alimenta a dinâmica do próximo ciclo eleitoral.

Porém, a maioria absoluta dos quadros de insatisfação dos cidadãos não se transforma em protestos barulhentos. Por que? Em sistemas sociais complexos, é comum que haja o que se chama de não-linearidades ou pontos de inflexão. Em outras palavras, pontos de “fervura”, que alteram o sistema. Assim, como regra geral, a insatisfação coletiva em relação ao governante de plantão tende a permanecer latente. Apenas quando a insatisfação aumenta em função de cenários adversos (em especial quando a economia se deteriora) e, de forma crítica, quando a causa dos problemas é atribuída claramente ao governante, tende a ocorrer o ponto de fervura e a mudança no sistema. O discurso dos formadores de opinião, desfavorável, se torna quase unânime, insuflando a insatisfação, que, passado o ponto de fervura, dá origem à irritação. Como emoção, a irritação tem um tempo curto para dissipação, mas o governante pode colaborar para que isso não ocorra, como fez Dilma ao aparecer algumas vezes em rede nacional no auge de sua fritura nacional. A irritação também pode não se dissipar e ser contida à força, transformando-se em ressentimento. Aconteceu na Romênia de Nicolau Ceausescu e parece estar acontecendo neste momento na Venezuela. Não costuma acabar bem para o governante.

Mas voltemos aos quadros democráticos. Quando ocorre esse estado de irritação não dissipada e quando as identidades de apoiadores e opositores se cristalizam em um eixo moral, cria-se um estado de atração no sistema para a ação coletiva. Protestos começam a ser organizados e geram uma dinâmica própria, levando a mais protestos e ativando o desejo de participação entre os segmentos que se identificam com os que estão na rua. Ao serem abertos canais para a ação coletiva, vozes representativas aparecem. A participação da classe média acende o alerta entre os atores políticos, cuja percepção, após um certo tempo, se altera: eles passam a considerar a hipótese de se dissociar de um governante expressamente impopular.

Identificação, de fato, é crucial para a propagação do fenômeno. Temer se diferencia de Dilma não apenas pela experiência parlamentar prévia e por ter sabido abortar a tempo aparições em rede nacional que poderiam alimentar a insatisfação ou a irritação. O governo anterior acirrou a narrativa do “nós contra eles”, ativando um “botão” universal no ser humano, que é o tribal. Não foi à toa que as batalhas nas redes sociais entre apoiadores e opositores lembraram arquibancadas de estádio de futebol. Temer não carrega consigo essa tocha. Ao mesmo tempo, até aqui conseguiu segurar em seu governo um partido (PSDB) e técnicos (na área econômica) que lhe dão um fio de sustentação junto à elite econômica do país e à boa parte dos formadores de opinião. A muito custo, tem mantido um patamar mínimo de apoio político. Se a economia esboçar sinais de reação efetiva e se Temer se mostrar capaz de conseguir aprovar outras reformas, parece improvável que o ponto de fervura da insatisfação – com que flertou durante o escândalo da JBS – seja atingido, ainda que seus índices de popularidade continuem ruins.

Mas, contrariando o discurso dos atuais opositores, falta de protestos barulhentos não significa apoio político ou aceitação da corrupção. As panelas não se machucaram nas varandas gourmet durante o escândalo do mensalão. Significa simplesmente a normalidade do fenômeno. Em um contexto de democracia estabelecida, como é o caso do Brasil das últimas décadas, a insatisfação latente é a regra e os protestos desestabilizadores, a exceção. Apenas uma conjunção específica de fatores é capaz de ativá-los.