A mente humana não consegue conviver bem com a incerteza e exige respostas definitivas. Estamos vivendo já as piores consequências do aquecimento global? A ciência ainda não consegue dar respostas com certeza absoluta a questões como essa, embora já exista um consenso entre a maioria dos cientistas dedicados ao tema de que o aquecimento global é fato. “Mas como?” – Grita o cidadão que recebeu um e-mail ou assistiu um vídeo no YouTube mostrando o ponto de vista de alguns cientistas céticos. “Esse aquecimento global é história para boi dormir”, diz ele. Reações como essa, que são comuns, indicam apenas o desconhecimento do método científico. A unanimidade é inimiga da ciência, sem dúvida. Mas uma abordagem racional dos problemas sociais demanda que se aceite o consenso da maioria dos cientistas, gerado a partir do conhecimento produzido em pesquisas que foram revisadas e publicadas nos principais periódicos acadêmicos da área. É bom que se repita: A maioria absoluta dos cientistas dedicados ao tema está suficientemente convencida tanto do aquecimento global quanto de seus potenciais efeitos negativos para a vida no planeta. Como explica o estatístico americano Nate Silver, no excelente The Signal and The Noise, a extrema complexidade inerente ao estudo de campos do conhecimento como a climatologia torna virtualmente impossível fugir de abordagens como simulações rodadas em computador (que podem ser muito poderosas) e a construção de cenários. Em um desses cenários, estruturado por um grupo de cientistas do MIT, existe uma probabilidade razoável de consequências assustadoras para a vida na Terra, reflexo de uma elevação da temperatura média de 5 graus Celsius até o final deste século.

Mas o que isso tudo tem a ver com a decisão da Sabesp de conceder desconto na conta de água para os consumidores abastecidos pelo Sistema Cantareira? O histórico verão com clima de deserto em São Paulo secou os reservatórios e pegou, ao que parece, todos de surpresa. Fala-se sobre a possibilidade de racionamento, o que as autoridades negam – um claro indicador de que a possibilidade é real. A resposta da Sabesp para tentar diminuir a demanda foi dar o desconto de 30% para quem economizar ao menos 20% em seu consumo. Mas essa medida é claramente insuficiente para produzir uma redução significativa do consumo. O principal problema dela é estar calcada em uma certeza absoluta na mente dos gestores públicos, mas que vem sendo demolida já há algumas décadas pela economia comportamental: A ideia do homo economicus, cuja mudança de comportamento na direção desejada depende apenas da existência de incentivos econômicos adequados. Sim, não há dúvidas de que as pessoas respondem a incentivos, como regra geral. Mas, além dos casos em que os incentivos funcionam na direção oposta da pretendida (o que não vou abordar aqui para não tornar o texto muito longo), a ciência comportamental vem comprovando ao longo das últimas décadas que as pessoas respondem também a outros fatores importantes, frequentemente de forma mais poderosa do que a incentivos financeiros.

A situação que a Sabesp enfrenta, convenhamos, não é fácil. A água sempre foi encarada pela sociedade como um recurso infinito. O desperdício é comum e o preço da água não reflete seu potencial de escassez. O problema também se agrava pela crescente verticalização das cidades, que resulta em prédios cuja medição de consumo geralmente não é individualizada, gerando um poderoso incentivo ao consumo elevado. Em um cenário de racionamento de água será comum o comportamento de carona (free rider) ou o chamado efeito Ringelmann – imagine que você está puxando a corda de um cabo de força e que há mais 8 pessoas com você – o esforço individual acaba sendo menor. Poucos economizarão de verdade, enquanto os demais condôminos manterão seu padrão de consumo.

O que outros países que enfrentaram situações de escassez de recursos fizeram? As melhores experiências mostram, por exemplo, que fornecer um inequívoco feedback comparativo do padrão de consumo de uma residência ajuda a diminuir o consumo. O feedback precisa ser concreto, rápido e precisa refletir uma comparação com residências similares ou com vizinhos de um mesmo bairro. Nos Estados Unidos, reduções significativas de consumo de energia elétrica foram obtidas com o envio de contas de luz com a comparação do consumo com a média da vizinhança, bem como com a residência que mais reduziu o consumo, além de informações práticas para alcançar o objetivo pretendido. A utilização de “carinhas” (feliz, neutra, triste) que indicam o nível de consumo em relação ao desejável também tem sido bem sucedida, bem como a estruturação de comunidades virtuais com níveis de desafio (no caso, a economia de água) progressivos, que podem ser galgados pelos consumidores na medida em que determinados comportamentos são adotados – a recompensa é a atribuição de mecanismos simbólicos de reconhecimento (badges). Outras iniciativas internacionais incluem, por exemplo, intervenções para criar jardins e campos que demandem pouca água (com a escolha de plantas e mudanças no sistema de irrigação), incentivos para a troca de vasos sanitários, torneiras e chuveiros, programas educacionais em escolas e em comunidades (com foco prático), adoção de selos de economia em equipamentos, atividades direcionadas à faixa de residências com maior consumo (como o emprego de compromissos escritos) e a divulgação da experiência de pessoas bem-sucedidas (role models) na adoção do comportamento desejado. O foco dessas abordagens é sempre a oferta de benefícios tangíveis e intangíveis ao consumidor, de modo que este escolha por si só aderir aos comportamentos esperados. Existe um consenso na literatura internacional dedicada ao tema: É preciso uma abordagem sistêmica, baseada em abordagens múltiplas, simultâneas e alimentadas pelo conhecimento científico sobre os motores do comportamento social.

Além dos exemplos listados acima e que poderiam ser adotados no esforço de redução de consumo, seria recomendável à Sabesp o investimento no desenvolvimento de soluções acessíveis de medição individualizada de consumo em condomínios. As soluções existentes hoje parecem ser caras, dependendo do tamanho e da estrutura do condomínio. A parceria com empresas que atuam nessa área e com centros de pesquisa é um caminho interessante.

É possível que no futuro a água potável seja tratada como um bem tão escasso como o petróleo e que sofra um choque de preços para alterar a demanda? Não tenho resposta para isso, mas tenho a convicção de que é preciso estar preparado para um cenário desse tipo. Precisaremos de uma mudança significativa nos padrões de consumo da água, que pode ser alcançada com a ajuda de medidas simples, como demonstra a experiência internacional. Só o apelo ao consumo racional, como tem feito com frequência o governador de São Paulo, ou o desconto temporário na conta são claramente insuficientes para mudar o comportamento dos consumidores.