O economista comportamental Richard Thaler costuma contrastar duas visões distintas do ser humano. De um lado, os econs, indivíduos perfeitamente racionais e incapazes de ser influenciados em suas decisões e comportamentos por fatores considerados irrelevantes, como emoções. De outro, os humans, sujeitos a vieses sistemáticos e previsíveis e com limitação em recursos essenciais, em particular racionalidade, atenção e cognição.

Por apostar que os seres humanos são humans e não econs, a economia comportamental implodiu, por meio de um devastador conjunto de evidências, o prototípico homo economicus que ainda habita os livros-texto de economia. Porém, ideias inadequadas são como o filme antigo, duras de matar.

Ideias como essas têm consequências e persistem em modelos mentais que orientam as políticas públicas no Brasil. Esse foi o caso, infelizmente, da política de reajuste diário de preços de combustíveis. Sim, é algo que funciona em países como os Estados Unidos. Sim, é algo racional. Mas ao se basear em um modelo mental que considera indivíduos como econs, a política falhou, pelo menos nesse primeiro momento.

Primeiro, porque leva tempo para educar o consumidor e pouco esforço aparentemente foi feito nesse sentido. Segundo, porque o contexto socioeconômico vivido pelo país é desfavorável, marcado pela falência do modelo de apropriação do Estado brasileiro por interesses particulares e por um sistema político em pane. Para usar a linguagem de sistemas complexos, o sistema está em estado crítico e qualquer intervenção adicional, por menor que seja, é capaz de leva-lo à ebulição. Terceiro, a política falhou porque ignorou os efeitos que aumentos frequentes mas imprevisíveis teriam na chamada utilidade da transação do consumidor, termo técnico que reflete o quanto as pessoas percebem estar sendo espoliadas (ou não) na compra de determinado produto. Humans julgam o tempo todo se estão sendo tratados com justiça e reagem fortemente quando percebem que não.

Não se trata de negar racionalidade ao debate. Contrariamente ao discurso popular, o preço dos combustíveis fósseis precisa ser alto por um tempo suficiente para viabilizar o desenvolvimento de fontes alternativas renováveis. Gasolina e diesel baratos são ruins no longo prazo. Os tributos incidentes também precisam ser altos para compensar as imensas externalidades geradas por esse tipo de combustível, em especial a poluição.

Porém, ao viabilizar aumentos frequentes, facilmente perceptíveis, a nova política da Petrobras aplicou um súbito 7 a 1 em uma sociedade entorpecida por anos de políticas populistas e por uma cultura de patrimonialismo que é difícil de debelar. O mais correto, considerando que as pessoas não são econs e se revoltam quando se sentem tratadas de forma injusta, seria, entre outras medidas, suavizar as variações, o que poderia ser feito por meio do emprego de médias móveis de preços, com um perfil temporal mais longo (por exemplo, trimestrais).

Vivemos em uma sociedade que tradicionalmente opta por soluções bastante ruins e no setor de transportes não poderia ser diferente. Não apenas erramos, como na opção pelo transporte rodoviário de cargas, mas continuamos aplaudindo o erro, como recente editorial de um grande jornal fez ao elogiar o rodoanel em São Paulo – que é uma política pública ruim, como já discuti neste espaço.

Contudo, se queremos acertar, como é o caso da correta decisão de refletir internamente os preços internacionais do petróleo, precisamos ter em conta qual modelo de ser humano estamos implicitamente incorporando nas políticas adotadas. É isso ou correr o sério risco do retrocesso, sempre possível em uma sociedade acostumada a gerar benefícios para poucos e custos para muitos.