Não existe mudança em sistemas sociais complexos sem a existência de um forte gap percebido entre a situação real e a situação desejável. O elemento central aqui é a percepção. As pessoas tendem a se assustar quando se descobrem diabéticas, ainda que a doença já estivesse presente, mas não notada. Executivos sofrem pressão de acionistas quando os resultados das empresas ficam aquém do projetado ou quando escândalos revelam práticas antiéticas que arranham a imagem organizacional. Em todos esses casos, a discrepância percebida (o gap) entre o ideal ou esperado e a realidade gera uma pressão para a mudança.

Nessa linha, diversos economistas têm se exasperado nos últimos meses ao não enxergar nos políticos ou na população a percepção da gravidade da dinâmica dos gastos públicos do país. O colapso é matematicamente visível ali à frente, mas não é perceptível (ainda) para boa parte dos atores sociais. Por exemplo, pesquisa realizada há poucos meses por um grande instituto mostrou que seis em cada dez brasileiros não acreditam haver déficit na previdência social. É notável que o governo federal não soube e não está sabendo comunicar a gravidade da situação – e não se trata de gastar com agências de publicidade.

A questão é que comunicação pura e simples não é suficiente quando se trata de intervir em um sistema complexo, no qual há interesses enraizados, que produzem narrativas conflitantes. Isto é, não basta despejar informação sobre a população e imaginar que a luz será vista. No campo do discurso público, narrativas produzidas por visões de mundo distintas duelam para conquistar o segundo recurso mais escasso do mundo moderno, que é a atenção humana. Nem sempre a narrativa mais convincente é a que reflete melhor os dados.

Os gaps em sistemas sociais não são autoevidentes. Cabe a quem quer liderar mudanças a produção de narrativas fortes o suficiente para expô-los, o que exige um profundo conhecimento da natureza humana. Como se lida com quem vive em negação, por exemplo?

Enquanto isso, o país caminha para escancarar da pior forma possível o gap entre um insustentável Estado patrimonialista e sua base econômica. Enquanto a economia ou a carga tributária cresciam, houve espaço para a existência de caríssimos órgãos legislativos e judiciários, isenções fiscais que nunca mostraram resultado, subsídios sem sentido e muitas outras meias-entradas típicas do país. A conta está chegando aos poucos, mas os governos nos três níveis não se esforçam – ou não sabem como fazê-lo – para expor o gap adequadamente, o que poderia gerar pressão para correção de rotas a tempo. O país ainda não tem uma ideia palpável do que é se transformar em um grande Rio de Janeiro. Para piorar a situação, a pressão para a mudança – agora ou depois – precisa ser forte o suficiente para se contrapor à pressão contrária que surgirá da possível adoção de medidas amargas. Imagine-se a grita que pode acontecer com propostas que indiquem a redução do sistema “S”, o fim da Zona Franca de Manaus ou a cobrança de mensalidades em universidades públicas. Isso sem falar da Previdência.

Mudar a percepção em relação a gaps e lidar com narrativas concorrentes é, porém, apenas parte da receita. A outra parte é evitar a acomodação na sociedade. É da natureza humana ir se adaptando a situações difíceis de mudar. Isso ocorre por meio da chamada deterioração de objetivos (goal erosion), fenômeno que é consequência do encontro de intenções nobres com a dura realidade. Promessas de Ano Novo se esvaem, empresas se acostumam com um padrão de qualidade inferior ao desejável, governos evitam brigas que nunca vão querer comprar. Em outras palavras, objetivos de mudança frequentemente se degradam, levando à acomodação a pequenos progressos ou à aceitação da situação existente. Isso foi visto há pouco quando o governo federal revisou a meta de déficit das contas públicas para 2017 e 2018.

Ainda que cada setor da sociedade enxergue (ou não) o gap que lhe convêm, os limites do modelo de crescimento desigual da economia brasileiro foram alcançados. Não há mais espaço para aumento de carga tributária, as despesas obrigatórias crescem ano a ano e a economia está estrangulada pelos diversos vícios desse modelo. A hora da verdade está chegando, goste-se ou não. O gap vai ficar progressivamente mais visível. Acomodar-se a equilíbrios socioeconômicos ruins e abrir mão do desenvolvimento é sempre uma possibilidade. A Grécia ilustra que se sobrevive (mal) a um colapso fiscal. Que caminho seguiremos? E que gap constará da campanha dos candidatos de 2018?